Mato Grosso acende alerta sobre saúde mental e coloca municípios diante do desafio de ampliar a prevenção
Dados sobre suicídio e sofrimento emocional entre adolescentes reforçam a necessidade de ações permanentes nas cidades, com participação das áreas de saúde, cultura, lazer, educação e assistência social.
Por Luiz Carlos Bordin
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Mato Grosso vive um cenário que exige mais do que campanhas de conscientização uma vez por ano. O aumento das mortes por suicídio e os indicadores de sofrimento emocional entre adolescentes colocam a saúde mental no centro de um debate que precisa chegar às prefeituras, às escolas, às unidades de saúde e às famílias. O levantamento que motivou esta reportagem aponta 267 mortes por suicídio entre janeiro e agosto de 2026, segundo dados atribuídos ao Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). O material também cita uma pesquisa segundo a qual 21,5% dos estudantes mato-grossenses de 13 a 17 anos afirmam sentir que a vida não vale a pena ser vivida, percentual acima da média nacional de 18,5%. É importante destacar que esse indicador da pesquisa escolar mede uma percepção relatada pelos estudantes e não representa uma taxa de suicídio.
O cenário não pode ser explicado por uma única causa. Questões familiares, dificuldades econômicas, conflitos sociais, violência, uso problemático de álcool e outras drogas, isolamento, dificuldades escolares e experiências negativas no ambiente digital podem fazer parte de situações de vulnerabilidade. No caso dos adolescentes, especialistas também chamam atenção para a pressão por aceitação e pertencimento e para a exposição intensa às redes sociais. Um dos pontos que merecem atenção é justamente a capacidade dos municípios de identificar o sofrimento antes que ele chegue a uma situação de crise. O Ministério da Saúde estabelece que a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) reúne diferentes serviços para atender pessoas em sofrimento mental, incluindo os CAPS, unidades básicas de saúde, hospitais, serviços de urgência e emergência e outros equipamentos da rede.
Na prática, isso significa que a UBS precisa ser mais do que um local para consultas médicas. As equipes de Saúde da Família podem ser capacitadas para reconhecer sinais de sofrimento, acolher o paciente, acompanhar os casos e estabelecer o encaminhamento adequado quando houver necessidade de atendimento especializado. Nos municípios que possuem CAPS, outro desafio é fazer com que o serviço funcione de maneira integrada com as demais estruturas. Segundo o Ministério da Saúde, os CAPS realizam acolhimento, acompanhamento clínico, apoio psicossocial, atendimento de crises e atividades terapêuticas, além de atuar em articulação com UBS, hospitais, UPAs, SAMU, assistência social, educação e outros serviços.
O tamanho do município também precisa ser considerado. O Ministério da Saúde prevê diferentes modalidades de CAPS conforme o porte populacional e as necessidades da população. O CAPS I, por exemplo, atende pessoas de todas as idades em intenso sofrimento psíquico e é previsto para municípios acima de 15 mil habitantes. Já modalidades como CAPS II, CAPS III, CAPS Infantojuvenil e CAPS AD possuem critérios populacionais específicos. Isso abre uma discussão importante para as cidades pequenas de Mato Grosso: quando o município não possui estrutura própria para todas as demandas, como garantir que o morador seja atendido e acompanhado? Nesses casos, a organização regional da saúde torna-se fundamental, com definição clara dos serviços de referência e dos caminhos para encaminhamento e retorno do paciente.
O próprio planejamento estadual mostra que ainda existe um desafio de ampliar a estrutura da Rede de Atenção Psicossocial. Documento do Governo de Mato Grosso aponta estudo técnico que identificou a necessidade de 111 serviços de saúde mental para uma cobertura integral, considerando diferentes modalidades da RAPS. O mesmo documento registra que a implantação depende de adesão dos gestores municipais, cumprimento de critérios técnicos e aprovação nas instâncias do SUS.
O que cada município pode fazer
Diante desse cenário, as prefeituras podem começar por medidas relativamente objetivas: levantar os dados de atendimentos relacionados à saúde mental; identificar os principais grupos vulneráveis; capacitar profissionais das UBS; organizar fluxos de encaminhamento para psicólogos, psiquiatras e CAPS; estabelecer protocolos para situações de crise; aproximar saúde e educação; e criar mecanismos para acompanhar o paciente depois do primeiro atendimento.
As escolas também podem participar dessa rede. Professores e profissionais da educação não devem substituir psicólogos ou médicos, mas podem receber orientação para reconhecer mudanças importantes de comportamento e saber para onde encaminhar o estudante. A aproximação entre escolas, famílias, UBS, assistência social e serviços especializados pode reduzir o risco de que um adolescente em sofrimento fique sem atendimento. Outra possibilidade é investir em grupos de convivência, esporte, cultura, lazer e atividades comunitárias, especialmente para crianças, adolescentes e idosos. Essas iniciativas não substituem tratamento psicológico ou psiquiátrico quando necessário, mas podem contribuir para fortalecer vínculos sociais e ampliar os espaços de convivência.
Também cabe aos municípios melhorar a comunicação com a população. Informações sobre onde buscar atendimento, quais unidades oferecem acompanhamento psicológico, onde funciona o CAPS, como procurar ajuda em uma crise e quais serviços estão disponíveis deveriam estar acessíveis nos sites das prefeituras, nas UBS, escolas e equipamentos da assistência social.
Mato Grosso já possui uma estrutura regionalizada de saúde mental e recebe recursos destinados à RAPS. Em janeiro de 2026, por exemplo, a Secretaria de Estado de Saúde publicou portaria prevendo R$ 1,245 milhão em cofinanciamento estadual para programas de regionalização, incluindo a Rede de Atenção Psicossocial. O documento apresenta repasses destinados a municípios que mantêm diferentes modalidades de CAPS. O desafio, portanto, não é apenas criar serviços, mas fazer a rede funcionar de maneira integrada. Para uma pessoa em sofrimento, pouco adianta existir um serviço no papel se ela não sabe onde procurar ajuda, não consegue chegar até o atendimento ou não recebe acompanhamento depois de uma crise.
A responsabilidade não é apenas da Saúde
A discussão também precisa sair exclusivamente das secretarias municipais de Saúde. Educação, Assistência Social, Cultura, Esporte, Conselho Tutelar e demais órgãos que trabalham diretamente com a população podem participar de uma estratégia municipal de prevenção e promoção da saúde mental. O objetivo não deve ser transformar professores, assistentes sociais ou agentes públicos em profissionais de saúde mental, mas criar uma rede capaz de perceber sinais de sofrimento, acolher, orientar e encaminhar cada pessoa ao serviço adequado. Os números servem como alerta, mas não explicam sozinhos por que uma pessoa chega a uma situação de sofrimento extremo. Por isso, transformar o problema em uma disputa por números ou procurar uma única causa pode esconder justamente a complexidade da questão.
Para o poder público municipal, a pergunta mais importante talvez seja outra: quando um morador pede ajuda, existe hoje uma rede preparada para recebê-lo, encaminhá-lo e continuar acompanhando sua situação? É nessa resposta que a política de saúde mental de cada município começa a deixar de ser apenas discurso e passa a funcionar como uma política pública permanente. Em caso de risco imediato, a pessoa deve procurar um serviço de emergência ou acionar o SAMU pelo 192. Para apoio emocional, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188.